O dia amanheceu solar, verde-azul pela moldura da minha janela. Ontem de madrugada, enquanto lia os trabalhos dos meus alunos sobre "A Memória de São João de Meriti", que consistia em entrevistas com moradores antigos, me emocionava, talvez pela primeira vez, com meu ofício. E senti um orgulho danado dos meus alunos.
Trabalhei tanto tempo com história oral, na faculdade, na monografia, que é através do tempo circular da memória que percebo a passagem do tempo. São as pequenas narrativas, a memória dos velhos que guarda do esquecimento imagens ignoradas pelo Poder e que suscitam, mais do que um passado acabado, a sugestão, a polifonia, a multiplicação de versões, a imprecisão.
O terreno da memória é o da dúvida, e como substrato da História, pincela a 'ciência' que estuda o passado com cores de romance policial, de poesia lírica, onde a palavra é auto-reflexiva, de nostalgia. O passado é o reino do não-dito.
Eu só gosto de Historiografia assim, quando ela é Literatura.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Uma lembrança dependurada na sacada.
Tinha o chão desnudo esperando o piso frio, quando naquela tarde quente lhe passamos a vista pela primeira vez. Depois de atravessarmos a estação de trem, perambularmos por todos os prédios do lado de lá, de duas águas minerais, suarmos em bicas e recebermos vários "não temos apartamento de quarto e sala para alugar", resolvemos, por indicação de um comerciante de carros usados, entrar numa imobiliária, que ficava escondida sob uma porta de madeira de lei, num prédio comercial.
Vi uma banheira daquelas antigas, verde. Um conjugado com uma banheira verde e uma janela de madeira carcomida pelos cupins maior que o apartamento. Lembrou-me a janela da casa da minha avó, janela esta, que escancarava a casa para o mundo e o mundo entrava com a intimidade de um amante para dentro da casa. Minha avó sempre abria a janela, cantando todos os dias uma música do seu tempo de menina, fazendo com que a luz do dia nos acordasse de forma abrupta. E de repente, quem entrava silenciosa pelas frestas, arrebentava nossas retinas. A manhã nos dava um tapa na cara.
Amei a janela. Era a janela da minha infância na casa da minha avó. O proprietário quer trocar, como já trocou os tacos do chão. Não queria que trocasse, só para seguir o ritual de girar o trinco, escutar o som do atrito do ferro e aspirar à rua através daquela moldura esbranquiçada. Já pensou: acordar num sábado de manhã e fazer o movimento de abrir os braços para deixar a luz entrar? Dispenso a visão translúcida e anti-séptica do vidro das janelas de alumínio. Já me basta esta janela de cristal líquido em 14 polegadas, pela qual vos falo.
Já na minha adolescência, vovó colocou grades nas janelas de madeira e nos vitrôs, assim como passou a chave na porta da rua. Januária na janela passou a ver o mundo fatiado em retângulos, porque aquela cidadezinha de 80 mil habitantes estava ficando perigosa.
Ter uma janela dessas, numa cidade como o Rio de Janeiro, é no mínimo um ato insano, tão insano que chega a ser obsceno não se proteger no clima de insegurança e paranóia geral.
Mas, que a minha pimenteira beberrona ficaria linda no canto do parapeito da janela...Ah! Ficaria!
Vi uma banheira daquelas antigas, verde. Um conjugado com uma banheira verde e uma janela de madeira carcomida pelos cupins maior que o apartamento. Lembrou-me a janela da casa da minha avó, janela esta, que escancarava a casa para o mundo e o mundo entrava com a intimidade de um amante para dentro da casa. Minha avó sempre abria a janela, cantando todos os dias uma música do seu tempo de menina, fazendo com que a luz do dia nos acordasse de forma abrupta. E de repente, quem entrava silenciosa pelas frestas, arrebentava nossas retinas. A manhã nos dava um tapa na cara.
Amei a janela. Era a janela da minha infância na casa da minha avó. O proprietário quer trocar, como já trocou os tacos do chão. Não queria que trocasse, só para seguir o ritual de girar o trinco, escutar o som do atrito do ferro e aspirar à rua através daquela moldura esbranquiçada. Já pensou: acordar num sábado de manhã e fazer o movimento de abrir os braços para deixar a luz entrar? Dispenso a visão translúcida e anti-séptica do vidro das janelas de alumínio. Já me basta esta janela de cristal líquido em 14 polegadas, pela qual vos falo.
Já na minha adolescência, vovó colocou grades nas janelas de madeira e nos vitrôs, assim como passou a chave na porta da rua. Januária na janela passou a ver o mundo fatiado em retângulos, porque aquela cidadezinha de 80 mil habitantes estava ficando perigosa.
Ter uma janela dessas, numa cidade como o Rio de Janeiro, é no mínimo um ato insano, tão insano que chega a ser obsceno não se proteger no clima de insegurança e paranóia geral.
Mas, que a minha pimenteira beberrona ficaria linda no canto do parapeito da janela...Ah! Ficaria!
quinta-feira, 15 de maio de 2008
É só a saudade que está pertubando meu sono. Diga lá, coração. Diga lá sua pele quente na minha pele. Diga lá seus pêlos, suas mãos, sua língua e um beijo teu na minha nuca. Eu me apaixonei por você depois daquele beijo na nuca. Foi tão fatal que deve ter atingindo meu cerebelo. Foi um beijo no cerebelo. Eu lembro. Aliás, eu vivo de lembranças. Ou revivo de saudades. Você me puxou para perto da sua boca, levantou os meus cabelos e revelou meu pescoço. Como é que eu posso esquecer disso? Deslocou a minha cabeça. Quebrou o meu pescoço como se degolasse uma galinha. E o meu corpo saiu andando, sem cabeça. Perdida por aí. Foi um beijo de amor, um beijo de morte, um beijo quente na nuca.
Texto retirado dos rascunhos de "O Nome da Rosa", escrito em 18/05/07
Obs. Aí Th, um velho texto inédito.
Texto retirado dos rascunhos de "O Nome da Rosa", escrito em 18/05/07
Obs. Aí Th, um velho texto inédito.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Fala Meriti!
Saens Peña - Pavuna. Tabuleiros com cenouras em bacias azuis, tomates em bacias verdes, morangos em bacias amarelas, sardinhas-prateadas, namorados-rosados, moleque-piranha e uma jaula com 4 bodes dentro. Vertiginosamente, é isso que eu vejo andando apressada pela feirinha da Pavuna. Lá onde "a dona cebola que estava envocada deu uma tapa no seu pimentão". A feirinha esbanja cores e cheiros em contraste com o cinza do asfalto e na falta do verde-azul das árvores e do mar da zona sul. No meu caminho, sempre imagino as barracas de frutas, verduras e peixes, como contínuo cromático congelado. Se pudessem capturar as cores com os cheiros seria uma experiência estética e tanto. O que eu não vejo, sei que existe porque farejo.
Pergunto onde pego o ônibus para a Vila União, atravesso o centro de São João, chego na praça da Matriz que fervilha de gente nos pontos de ônibus, camelôs que vendem todos os sabores do biscoito fofura, todos os tipos de bala, todos os tipos de refrigerantes genéricos, além da coca-cola e pergunto de novo para um fiscal que está suando em bicas: "Onde pego o ônibus pro Ciep Jean-Batiste Debret?" Dou nome e sobrenome à escola. O fiscal responde: "Ah! O Ciep 179...Você pega o 103 pra Nilópolis."Dentro do ônibus pergunto ao trocador: "Falta muito?"
O Ciep tem nome de número e paredes azuis e vazadas. Aspiro poeira do caminhão que passa, vejo uma carroça logo a seguir. O ar de São João é carregado de uma poeira fina, que não é necessariamente do asfalto, parece terra.Essa escola me lembrou em alguma medida, uma escola que ficava na zona rural de Cruzeiro, na qual eu fazia estágio nos meus tempos de normalista. O ar tinha essa mesma consistência e coloração amarronzada. O ar tem gosto de terra. Terra seca. O bairro, onde se localiza a escola, fica na periferia de São joão e mistura elementos de subúrbio, favela, assim como, de uma cidade do interior. É um bairro pobre, com casas inacabadas, antigas e com um colorido desbotado. Como se a tinta das peredes tivesse dissolvido depois de tanta chuva ou como se fosse aplicada diretamente sobre o cal. As casas têm cores de giz. As ruas são asfaltadas, mas poeirentas. Imagino que aquela terra toda tenha origem nas ruas próximas onde o asfalto ainda não chegou. Meninos soltam pipas e jogam bola nas ruas paralelas à escola. Outros estudantes transitam na calçada indo em direção à escola de enfermagem que fica a dois quarteirões do ciep onde leciono.
Cada quarteirão tem no mínimo 2 botequins que nunca vi vazios no meu dia de trabalho. O porteiro da escola abre o portão, me cumprimenta e subo a rampa do Ciep até o terceiro andar. O chão é cinza, cor-de-grafite. Segue um barulho infernal, que ainda não consigo localizar com precisão de onde vem. As vozes ultrapassam as paredes brancas das salas, se misturam no corredor e chegam aos meus ouvidos.604. Abro a porta azul-marinho-acrílico. Entro: "Eu sou a nova professora de História de vocês".
+ Texto originalmente publicado no blog "O nome da Rosa" em 07 de Junho de 2007 sob o título:"Techinicolor".
Muita coisa mudou na minha forma de olhar o trajeto de casa até o trabalho. E o encantamento que sentia através do olhar distanciado, estrangeiro vem se transformando num olhar minuncioso, intimo ou, muitas vezes, pelo avesso: pela pressa, pela frequência, pelo cansaço, tenho olhado Meriti com indiferença.
A vida segue linear sobre os trilhos do metrô e com a precisão de um relógio atômico, em 45 minutos chego ao meu destino. Os gestos se dão de forma regular e constante acompanhando o tique-taque dos ponteiros.
A intimidade criada a partir da repetição dos dias, conteúdos e da paisagem suburbana congelada e inodora através dos vidros do metrô transforma o trabalho, muitas vezes, numa linha de produção e como um operário que prevê seu dia: bato o ponto.
No entanto, o cotidiano também traz um sentimento de pertencimento, de comunidade. Me vejo na fronteira, me equilibrando numa tênue linha entre a descoberta e a indiferença acerca da sub urbe.
A Pavuna é a última estação do metrô, é o fim da cidade, da urbe. Lá onde o Rio Cidade não chegou, onde a ruas se assemelham ao solo lunar e a sujeira carrega o rio Meriti. E passo todos os dias pelas barracas de fruta, pelos gatos nas barracas de peixe que atraem moscas varejeiras, pelo asfalto salpicado de escamas, pelos tomates apodrecidos, pelos ratos, pelo calor infernal, pelo burburinho dos passantes e pela fumaça negra expelida dos canos dos ônibus e kombis que saem do terminal rodoviário.
O contraste desse quadro com as imagens da minha infância e adolescência nas ruas limpas, amplas, asfaltadas e arborizadas da zona sul é um choque elétrico na espinha. Mais do que um exercício antropológico, onde me coloco no lugar do outro, me dói, todos os dias, chegar ao trabalho.
Me dói pela repulsa a tanta pobreza, por tanto descaso. Sigo. Engulo a poeira do ar e vou em frente, anestesiada.
É o abismo entre o trem e a plataforma. Quando chego em casa, é como se o metrô tivesse me teletransportado para outra dimensão de uma mesma cidade. A gente entra, senta, segue contínuo e quando sai do vagão está em outro lugar, completamente díspare.
A brutalidade da pobreza se contrapõe a suavidade dos meus alunos e alunas sob o uniforme azul e branco, os sapatos boneca e os trabalhos de escola. Alunos que não têm aquela arrogância característica das classes altas, de quem nasceu e foi educado para mandar: a classe patronal.
De todos os meus alunos, em todas as escolas em que trabalho, são com os alunos de Meriti que estabeleço laços de afeto, que me identifico.
Quase que norteada por um sentimento cristão, é por eles que eu sigo sem me importar que tenha deixado meus mortos de lado, apesar da saudade dos livros.
Pergunto onde pego o ônibus para a Vila União, atravesso o centro de São João, chego na praça da Matriz que fervilha de gente nos pontos de ônibus, camelôs que vendem todos os sabores do biscoito fofura, todos os tipos de bala, todos os tipos de refrigerantes genéricos, além da coca-cola e pergunto de novo para um fiscal que está suando em bicas: "Onde pego o ônibus pro Ciep Jean-Batiste Debret?" Dou nome e sobrenome à escola. O fiscal responde: "Ah! O Ciep 179...Você pega o 103 pra Nilópolis."Dentro do ônibus pergunto ao trocador: "Falta muito?"
O Ciep tem nome de número e paredes azuis e vazadas. Aspiro poeira do caminhão que passa, vejo uma carroça logo a seguir. O ar de São João é carregado de uma poeira fina, que não é necessariamente do asfalto, parece terra.Essa escola me lembrou em alguma medida, uma escola que ficava na zona rural de Cruzeiro, na qual eu fazia estágio nos meus tempos de normalista. O ar tinha essa mesma consistência e coloração amarronzada. O ar tem gosto de terra. Terra seca. O bairro, onde se localiza a escola, fica na periferia de São joão e mistura elementos de subúrbio, favela, assim como, de uma cidade do interior. É um bairro pobre, com casas inacabadas, antigas e com um colorido desbotado. Como se a tinta das peredes tivesse dissolvido depois de tanta chuva ou como se fosse aplicada diretamente sobre o cal. As casas têm cores de giz. As ruas são asfaltadas, mas poeirentas. Imagino que aquela terra toda tenha origem nas ruas próximas onde o asfalto ainda não chegou. Meninos soltam pipas e jogam bola nas ruas paralelas à escola. Outros estudantes transitam na calçada indo em direção à escola de enfermagem que fica a dois quarteirões do ciep onde leciono.
Cada quarteirão tem no mínimo 2 botequins que nunca vi vazios no meu dia de trabalho. O porteiro da escola abre o portão, me cumprimenta e subo a rampa do Ciep até o terceiro andar. O chão é cinza, cor-de-grafite. Segue um barulho infernal, que ainda não consigo localizar com precisão de onde vem. As vozes ultrapassam as paredes brancas das salas, se misturam no corredor e chegam aos meus ouvidos.604. Abro a porta azul-marinho-acrílico. Entro: "Eu sou a nova professora de História de vocês".
+ Texto originalmente publicado no blog "O nome da Rosa" em 07 de Junho de 2007 sob o título:"Techinicolor".
Muita coisa mudou na minha forma de olhar o trajeto de casa até o trabalho. E o encantamento que sentia através do olhar distanciado, estrangeiro vem se transformando num olhar minuncioso, intimo ou, muitas vezes, pelo avesso: pela pressa, pela frequência, pelo cansaço, tenho olhado Meriti com indiferença.
A vida segue linear sobre os trilhos do metrô e com a precisão de um relógio atômico, em 45 minutos chego ao meu destino. Os gestos se dão de forma regular e constante acompanhando o tique-taque dos ponteiros.
A intimidade criada a partir da repetição dos dias, conteúdos e da paisagem suburbana congelada e inodora através dos vidros do metrô transforma o trabalho, muitas vezes, numa linha de produção e como um operário que prevê seu dia: bato o ponto.
No entanto, o cotidiano também traz um sentimento de pertencimento, de comunidade. Me vejo na fronteira, me equilibrando numa tênue linha entre a descoberta e a indiferença acerca da sub urbe.
A Pavuna é a última estação do metrô, é o fim da cidade, da urbe. Lá onde o Rio Cidade não chegou, onde a ruas se assemelham ao solo lunar e a sujeira carrega o rio Meriti. E passo todos os dias pelas barracas de fruta, pelos gatos nas barracas de peixe que atraem moscas varejeiras, pelo asfalto salpicado de escamas, pelos tomates apodrecidos, pelos ratos, pelo calor infernal, pelo burburinho dos passantes e pela fumaça negra expelida dos canos dos ônibus e kombis que saem do terminal rodoviário.
O contraste desse quadro com as imagens da minha infância e adolescência nas ruas limpas, amplas, asfaltadas e arborizadas da zona sul é um choque elétrico na espinha. Mais do que um exercício antropológico, onde me coloco no lugar do outro, me dói, todos os dias, chegar ao trabalho.
Me dói pela repulsa a tanta pobreza, por tanto descaso. Sigo. Engulo a poeira do ar e vou em frente, anestesiada.
É o abismo entre o trem e a plataforma. Quando chego em casa, é como se o metrô tivesse me teletransportado para outra dimensão de uma mesma cidade. A gente entra, senta, segue contínuo e quando sai do vagão está em outro lugar, completamente díspare.
A brutalidade da pobreza se contrapõe a suavidade dos meus alunos e alunas sob o uniforme azul e branco, os sapatos boneca e os trabalhos de escola. Alunos que não têm aquela arrogância característica das classes altas, de quem nasceu e foi educado para mandar: a classe patronal.
De todos os meus alunos, em todas as escolas em que trabalho, são com os alunos de Meriti que estabeleço laços de afeto, que me identifico.
Quase que norteada por um sentimento cristão, é por eles que eu sigo sem me importar que tenha deixado meus mortos de lado, apesar da saudade dos livros.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
sábado, 5 de janeiro de 2008
Afonso Henriques Lima Barreto
Ando tonta, nauseada, enjoada. Tropeço. Ando devagar porque me sinto uma barata intoxicada. Gosto de morte na boca. Me desculpe este texto em primeira pessoa. Esse tom confessional. Falta um cigarro, falta ser suave. Falta fumaça para que eu retome o fôlego para escrever. Vejo meus livros e tenho vontade de chorar compulsivamente. Nada me traz mais tristeza do que a sensação de que não os alcanço. Cansada.
Não sei escrever e gaguejo enquanto escrevo este texto. Queria ser menos roja que Clarice, ser lavanda. Ganhei Rayuela em espanhol, La liebre también. É um luxo, não? Toco, miro as cores, a textura do papel, a tipografia, o cheiro de celulose e aspiro os ácaros. Sufoco. Vomito todas as palavras que ingeri, soluço vírgulas, pontos e travessões e de vez em quando arroto um parágrafo inteiro.
Meu estômago dói, minha cabeça dói. Nada sai suave e ler já não consigo, escrever já não consigo. As letras caem violentamente uma a uma. Sonhar já não sei, desaprendi. Me pergunta se eu estou feliz. "Você está feliz?" "Estou feliz".
Quanto mais eu vivo, menos escrevo. Sinto saudade dos meus mortos. Não sou mais leitora. Me maltratam meus mortos, me sinto indigna e tão moribunda que minhas palavras saem assim mendicantes. Sem elegância. Não sou mais leitora, não escrevo mais. Não me peça para apurar nada. Eu só vomito palavras e choro enquanto escuto o estalar das teclas de plástico. Me sinto tão indigna das palavras que não abro um livro sequer há um mês. A idéia de tocá-los me deixa aos prantos. Isso tudo é uma bobagem para quem vê literatura como entretenimento. Eu queria um cigarro agora. Enquanto escrevo, transbordo pelas mãos, pelos olhos, pelo nariz. Coloco o dedo na minha ferida. E largar meu vício pelos livros é mais doloroso que largar 17 anos de tabagismo. Tenho medo de esquecê-los. Tenho medo da ignorância, do senso-comum, da superfície, da literatura como entretenimento. Seria tudo tão mais fácil, se num dia de sol, eu abrisse La liebre e desgustasse seu espanhol despretensiosamente.
Um dia tive uma crise de choro no metrô. Olhava para o vidro enegrecido e tive um impulso de perguntar para a moça que estava sentada ao meu lado se ela queria meu Faulkner de presente. Não tive coragem, fiquei na vontade. Não abri mais o Faulkner.
Para Lima Barreto, TH e Huguito.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Verbalizou
Avistou, se aproximou, reparou, pensou, decidiu, avançou, se conteve, parou, averigou, contrabalançou, abriu, conferiu, contou, retirou, entrou, entregou, pediu, aguardou, pegou, agradeceu, sorriu, guardou, saiu, andou, telefonou, saudou, falou, marcou, se despediu, chamou, se sentou, informou, viu, apreciou, cochilou, acordou, pagou, saltou, andou, apertou, esperou, esperou, bufou, entrou, apertou, subiu, saiu, caminhou, abriu, pegou, escolheu, enfiou, adentrou, fechou, desapateou, colocou, percorreu, se despiu, ligou, se banhou, se enxugou, deitou, adormeceu, sonhou, se assustou, despertou, ouviu, se levantou, olhou, abriu, sorriu, retribuiu, beijou, abraçou, se achegou, convidou, apontou, ansiou, relaxou, beijou, se esfregou, retirou, acariciou, arranhou, beijou, retirou, sorriu, abraçou, beijou, se afastou, sorriu, retirou, retirou, guiou, se deitou, acariciou, se avolumou, percorreu, beijou, percorreu, linguou, sorriu, virou, mordeu, estapeou, virou, sorriu, trouxe, fechou, se entregou, se unificou, ascendeu, se morreu, se eternizou, se esfacelou, se liquificou, se largou, sorriu, beijou, acarinhou, ficou, encostou, escutou, riu, comentou, acarinhou, se perdeu, riu, implorou, fechou, se extasiou, agradeceu, gargalhou, se levantou, abriu, pegou, despejou, dividiu, repartiu, aspirou, soprou, guardou, sorriu, andou, abriu, desgavetou, pegou, foi, pagou, beijou, acompanhou, se despediu, fechou, retornou, desabou, imaginou, se ergueu, procurou, se vestiu, bateu, saiu, recordou.
Texto de Th
Texto de Th
Abriu o diafragma, capturou lentamente a luz. Então vieram as cores das coisas: aquele azul-marinho descacado da porta da cozinha, su pelo rubio, su cuerpo gris.
Coloca um pouco de cor nas bochechas, eu disse. Você está muito pálida, parece um espectro.
Ela levantou do rodapé da varanda e entrou no quarto. Saiu vestida de negro e tinha um delicado arranjo de rosas vermelhas adornando os cachos no alto da cabeça.
Por um momento, ela se virou para a porta do quintal e a claridade atravessou sua retina, dando um aspecto translúcido aos olhos azuis. Thereza tamborilava os dedos aflitos no portal de madeira carcomido. Acendeu um cigarro e se sentou no rodapé. Qué vamos hacer, perguntei a ela.
Nos conformamos en respirar. Caminemos, dijo ella. Sigamos para la muerte y vivamos mientras tegamos vida para vivir.
Enlacei sua cintura e encaminhei Thereza até o carro, ouvindo o estalar de seu salto contra o piso de tábuas corridas. Quem sabe os mortos no porão haverão de nos seguir novamente.
Coloca um pouco de cor nas bochechas, eu disse. Você está muito pálida, parece um espectro.
Ela levantou do rodapé da varanda e entrou no quarto. Saiu vestida de negro e tinha um delicado arranjo de rosas vermelhas adornando os cachos no alto da cabeça.
Por um momento, ela se virou para a porta do quintal e a claridade atravessou sua retina, dando um aspecto translúcido aos olhos azuis. Thereza tamborilava os dedos aflitos no portal de madeira carcomido. Acendeu um cigarro e se sentou no rodapé. Qué vamos hacer, perguntei a ela.
Nos conformamos en respirar. Caminemos, dijo ella. Sigamos para la muerte y vivamos mientras tegamos vida para vivir.
Enlacei sua cintura e encaminhei Thereza até o carro, ouvindo o estalar de seu salto contra o piso de tábuas corridas. Quem sabe os mortos no porão haverão de nos seguir novamente.
Círculos de Existência
Andei em círculos como se andasse em círculos, mas os círculos serviram apenas para dissimular um andar retilíneo e estorvante.
*Texto de TH.
*Texto de TH.
sábado, 20 de outubro de 2007
Engov
Certa vez – era inverno, me lembro, mês de julho, fazia frio –, acordei no meio da noite com uma vertigem estranha. Na verdade fui acordado por ela. Um movimento brusco e involuntário do corpo que tropeça na culpa; uma sensação de quase queda e a entrada súbita no estado de alerta. Estendi a mão até o interruptor da luminária. Despertar repentinamente no meio do breu me deixa um pouco assustado. Girei o botão de um lado a outro, uma, duas, três vezes. Nada de luz. Puxei o fio com alguma força pra me certificar de que a tomada estava plugada. Merda! Esqueci de pagar a conta novamente! Pouco tempo depois, um bolo de ar ácido teimava em passear entre a boca do meu estômago e a minha garganta.
Rolei na cama por algumas horas procurando a melhor posição pra adormecer novamente; tanta coisa pra fazer logo mais, melhor não me render à vigília. Deita de bruços, aperta o travesseiro contra a barriga, tenta pensar em outra coisa, imagina um campo florido, crianças brincando, vai passar, vai passar... amanheceu. O foda é que acontece sempre. Cortarem a luz? Não, com isso já estou mais que habituado! Quando a vista acostuma, eu me viro relativamente bem no escuro. Pior é agüentar as dores de estômago, o ranço de amargura na boca e o leve enjôo que me perseguem até que a culpa se dissipe!
Em outubro passado esqueci o aniversário de uma amiga. Não se trata de qualquer pessoa, mas de alguém bastante próximo. Foi num fim-de-semana, fiquei a tarde inteira enterrado no sofá da sala, trocando compulsivamente o canal da televisão, com pouco ou nenhum interesse pelo que acontecia no vídeo. Só levantei pra jantar, tomei um banho longo, me deitei na cama pra ler e dormi. Três e meia da manhã: caralho, o aniversário da Flávia! Todo esse tempo ocioso, o telefone a menos de dois metros das minhas mãos e nem uma demonstração de afeto, uma palavrinha de consideração que fosse! Como fui relapso, isso é imperdoável! Então foram bem merecidas as crises de tontura e às cinco horas de enxaqueca que me atacaram enquanto eu rascunhava um pedido de desculpas e esperava um horário razoável pra ligar.
Mas os problemas mais graves começaram mesmo há cerca de duas semanas, no exato momento em que me dei conta que tinha perdido um livro da Biblioteca Municipal. Eu já era mal visto na instituição por conta de gafes anteriores (crises de tosse inoportunas, um rabisco distraído no ensaio sobre a música brasileira do Mário, o desrespeito à pressa sagrada das sextas-feiras que faz com que os funcionários me olhem feio, quando, às quinze pras cinco da tarde, peço um exemplar que está no último armazém). Pois foi justamente um destes livros que eu deixei escorregar no ônibus a caminho de casa. (Na ocasião eu andava afetado pela sonolência, que adquiri ao receber uma carta ressentida. Um amigo que mora no exterior me cobrava com dureza as respostas que eu nunca escrevi). Sentei num daqueles bancos mais altos da condução (encostado na janela e atrás do motorista, é uma mania de infância), abri o livro no colo e então só me lembro de ler a frase las costumbres, Andrée, son formas concretas del ritmo, son la cuota de ritmo que nos ayuda a vivir... Quando dei por mim estava na calçada, há duas quadras do meu prédio, já sem o livro nas mãos e sentindo uma náusea incontrolável.
Entrei na portaria suando frio. Corri até o elevador e o desgraçado tinha acabado de subir! Resolvi usar as escadas, três andares, seis lances, onde estão as chaves, bolsos da frente?, bolsos de trás?! Direto pro banheiro, cabeça no vaso sanitário, espasmos, contrações, e enfim vomito minha aflição na forma de um ninho de cabelo grosso e escuro. Confesso que fiquei impressionado! A matéria mais estranha que eu já tinha regurgitado era pedaços de uma bílis amarronzada. Normal. Acontece quando carrego na dose. Até podemos ver isso como uma espécie de expurgo, uma depuração quase saudável, afinal, é sabido que o fígado tem grande capacidade regenerativa. Mas longos fios de cabelos negros emaranhados num novelo foram mais que um expurgo, talvez um exorcismo!
Nunca gostei de vomitar. Parece uma idéia consensual, mas não é. Tem gente que gosta. Conheço quem enfie o dedo na goela pelos mais diversos motivos: pra continuar comendo, pra emagrecer ou pra se livrar da ressaca. Eu infelizmente não tenho essa facilidade. Primeiro fico apavorado, depois sufocado, e por fim, deprimido. Imagine o quanto foi difícil passar várias vezes pela experiência de expelir uma secreção tão bizarra! Isso porque o refluxo voltava sempre que eu pensava no infeliz incidente e só me recuperei na segunda-feira à tarde, depois que pedi que um amigo de fala articulada ligasse pra biblioteca e se justificasse por mim.
A funcionária da administração nem se abalou. Segundo a interpretação do meu amigo, ela já devia ter a sentença decorada. Você deve preencher um formulário de extravio, assinar um termo de compromisso, pagar a taxa de reposição. Seus direitos de uso dos serviços da biblioteca ficarão suspensos pelo prazo de um mês. Acontece que eu não fui o primeiro nem o último a cometer esse tipo de deslize. Mesmo assim fiquei com a sensação de que aquela baixinha mal humorada já estava esperando pelo meu lapso. Vindo de mim, tal vício parece mais que previsível.
Hoje posso me dizer aliviado. Voltei à rotina tranqüila das taquicardias, breves paralisias, falta de ar e pequenos tremores que me tomam sempre que perco as chaves, deixo de cumprir um prazo, cometo erros ortográficos nas cartas ou me atraso pra sessão de cinema. Normal. Acontece quando me descuido.
**Texto da Anna.
Rolei na cama por algumas horas procurando a melhor posição pra adormecer novamente; tanta coisa pra fazer logo mais, melhor não me render à vigília. Deita de bruços, aperta o travesseiro contra a barriga, tenta pensar em outra coisa, imagina um campo florido, crianças brincando, vai passar, vai passar... amanheceu. O foda é que acontece sempre. Cortarem a luz? Não, com isso já estou mais que habituado! Quando a vista acostuma, eu me viro relativamente bem no escuro. Pior é agüentar as dores de estômago, o ranço de amargura na boca e o leve enjôo que me perseguem até que a culpa se dissipe!
Em outubro passado esqueci o aniversário de uma amiga. Não se trata de qualquer pessoa, mas de alguém bastante próximo. Foi num fim-de-semana, fiquei a tarde inteira enterrado no sofá da sala, trocando compulsivamente o canal da televisão, com pouco ou nenhum interesse pelo que acontecia no vídeo. Só levantei pra jantar, tomei um banho longo, me deitei na cama pra ler e dormi. Três e meia da manhã: caralho, o aniversário da Flávia! Todo esse tempo ocioso, o telefone a menos de dois metros das minhas mãos e nem uma demonstração de afeto, uma palavrinha de consideração que fosse! Como fui relapso, isso é imperdoável! Então foram bem merecidas as crises de tontura e às cinco horas de enxaqueca que me atacaram enquanto eu rascunhava um pedido de desculpas e esperava um horário razoável pra ligar.
Mas os problemas mais graves começaram mesmo há cerca de duas semanas, no exato momento em que me dei conta que tinha perdido um livro da Biblioteca Municipal. Eu já era mal visto na instituição por conta de gafes anteriores (crises de tosse inoportunas, um rabisco distraído no ensaio sobre a música brasileira do Mário, o desrespeito à pressa sagrada das sextas-feiras que faz com que os funcionários me olhem feio, quando, às quinze pras cinco da tarde, peço um exemplar que está no último armazém). Pois foi justamente um destes livros que eu deixei escorregar no ônibus a caminho de casa. (Na ocasião eu andava afetado pela sonolência, que adquiri ao receber uma carta ressentida. Um amigo que mora no exterior me cobrava com dureza as respostas que eu nunca escrevi). Sentei num daqueles bancos mais altos da condução (encostado na janela e atrás do motorista, é uma mania de infância), abri o livro no colo e então só me lembro de ler a frase las costumbres, Andrée, son formas concretas del ritmo, son la cuota de ritmo que nos ayuda a vivir... Quando dei por mim estava na calçada, há duas quadras do meu prédio, já sem o livro nas mãos e sentindo uma náusea incontrolável.
Entrei na portaria suando frio. Corri até o elevador e o desgraçado tinha acabado de subir! Resolvi usar as escadas, três andares, seis lances, onde estão as chaves, bolsos da frente?, bolsos de trás?! Direto pro banheiro, cabeça no vaso sanitário, espasmos, contrações, e enfim vomito minha aflição na forma de um ninho de cabelo grosso e escuro. Confesso que fiquei impressionado! A matéria mais estranha que eu já tinha regurgitado era pedaços de uma bílis amarronzada. Normal. Acontece quando carrego na dose. Até podemos ver isso como uma espécie de expurgo, uma depuração quase saudável, afinal, é sabido que o fígado tem grande capacidade regenerativa. Mas longos fios de cabelos negros emaranhados num novelo foram mais que um expurgo, talvez um exorcismo!
Nunca gostei de vomitar. Parece uma idéia consensual, mas não é. Tem gente que gosta. Conheço quem enfie o dedo na goela pelos mais diversos motivos: pra continuar comendo, pra emagrecer ou pra se livrar da ressaca. Eu infelizmente não tenho essa facilidade. Primeiro fico apavorado, depois sufocado, e por fim, deprimido. Imagine o quanto foi difícil passar várias vezes pela experiência de expelir uma secreção tão bizarra! Isso porque o refluxo voltava sempre que eu pensava no infeliz incidente e só me recuperei na segunda-feira à tarde, depois que pedi que um amigo de fala articulada ligasse pra biblioteca e se justificasse por mim.
A funcionária da administração nem se abalou. Segundo a interpretação do meu amigo, ela já devia ter a sentença decorada. Você deve preencher um formulário de extravio, assinar um termo de compromisso, pagar a taxa de reposição. Seus direitos de uso dos serviços da biblioteca ficarão suspensos pelo prazo de um mês. Acontece que eu não fui o primeiro nem o último a cometer esse tipo de deslize. Mesmo assim fiquei com a sensação de que aquela baixinha mal humorada já estava esperando pelo meu lapso. Vindo de mim, tal vício parece mais que previsível.
Hoje posso me dizer aliviado. Voltei à rotina tranqüila das taquicardias, breves paralisias, falta de ar e pequenos tremores que me tomam sempre que perco as chaves, deixo de cumprir um prazo, cometo erros ortográficos nas cartas ou me atraso pra sessão de cinema. Normal. Acontece quando me descuido.
**Texto da Anna.
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