sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Descartes

"Sinto, logo existo."

Sobre o sociopata que amei.

Hoje comprei um livro de poesia de uma indiana. Um livro que me traduzia. Quando a psicanálise não dá conta, só a literatura me salva e humaniza o monstro que é você. É necessário humanizar, mesmo que você dê nome de gente aos bichinhos que coleciona e trate como um bichicnho as mulheres com quem se relaciona. È necessário humanizar a sua violência. Saí tragando um cigarro sob a chuva fina e vendo imagens que derretiam sob a luz nas ruas de vila isabel.
É noite. Aconchego.


Sobre amar um sociopata.

" tentei fugir tantas vezes mas
assim que eu dava as costas
meu peito sucumbia ao peso
eu voltava ofegante
talvez por isso te deixasse
arrancar minha pele
qualquer coisa
era melhor que nada deixar que me tocasse
mesmo sem gentileza
era melhor do que não ter suas mãos
eu aguentava o abuso
eu não aguentava a ausência
eu sabia que queria vida de uma coisa morta
mas não importava que estivesse morta
porque pelo menos
era minha

-vício"

Rupi Kaur

domingo, 4 de novembro de 2018

Cigarros, tarot e a escrita. No princípio fez-se o verbo e do verbo fez-se catarse. Caí do céu quando vendi minha alma ao diabo. Ele deveria ter me avisado que era só prostituição. Me sentiria mais digna. O problema de um acordo comercial com demo é que não é o seu corpo que interessa a ele.





Então numa encruzilhada, em Julho de 2014, encontrei o demônio. E ele me disse: "Te dou o que quiseres."  E nas letras miúdas do contrato estava escrito: "Mas, terás que pagar como eu quiser."







quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ontem, nas horas mortas, resolvi procurar um cartão telefônico em meio a minha bagunça cotidiana para saber notícias da viagem com o Arthur. A casa estava oca, silenciosa como se fora outrora a casa de um velho senhor, cujo os móveis ainda estavam intactos.

Procurei o cartão na pasta de documentos e achei um dvd com fotografias de três anos atrás. As imagens em pixels na tela côncava da tv evidenciavam em forma e conteúdo a impossibilidade do palpável.

Na sua virtualidade, não tinham textura, cheiro ou mesmo aquele-tom-amarelado-tão-charmoso das fotografias, envoltas no papel de seda, no quintal da casa de vovó Isabel.

No entanto, o paradoxo estava nas marcas inscritas nos rostos, nos corpos, nas relações, na dissolução dos laços, nos nós cegos atados no tempo que se seguiu.
De súbito, tive a sensação de vislumbrar os instantâneos do que foi o último suspiro de uma época de contentamento.

Talvez, em decorrência de alguma conjunção astral, a configuração dos destinos mudou. Neste ano, eu engravidei, saí de casa, arrumei 3 empregos e a minha vidinha confortável virou pelo avesso.

Foi neste ano que pessoas queridas se afastaram e romperam umas com as outras. Foi ao final de 2008 o último reveillón que passamos todos juntos em Teresópolis, a última vez que visitei Petrópolis e bebi aquele chopp preto com você no D´Angelo.

Foi o último ano em que dividimos a vida com aquela fé bonita e ingênua no futuro.

Os sonhos criaram bôlor. E as pessoas também.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Antipenélope

Não sei se por coincidência ou a mania que os seres humanos têm de buscar analogias, mas, nesta semana estava lendo a Odisséia quando, logo depois, abri Roland Barthes: "Fragmentos do discurso amoroso". Abri uma página onde o autor falava da mulher como áquela que espera.

Penélope espera Ulisses voltar depois de mais de uma década no mar. O homem, segundo Barthes, é aquele que se lança às aventuras e a mulher espera. Espera no lar, que é o microcosmo feminino desde que o mundo é mundo. Apenas em meados do século passado é que isso começa a mudar.

Barthes ainda diz que o homem que sofre, chora e espera pela mulher amada que se foi, é um homem feminilizado. Ele fala de literatura, fala dos personagens masculinos. Ou melhor, da construção das vozes masculinas na literatura.

Penélope é uma personagem reverenciada como um dos poucos retratos de personagens femininos inteligentes e com vontade própria na literatura universal. Num mundo tomado por homens. Quem fala é o homem.

Pois, acho que Penélope deveria depois de tantos anos de espera, amancebar-se com um dos pretendentes que tomam a sua casa, ao invés de ficar tecendo e desmanchando uma manta à espera de Ulisses que se aventura por anos a fio, longe de casa.


Vai viver Penélope.


Ps. Agora, lembrei-me de Joyce que criou Molly Bloom como antítese de Penélope em "Ulisses". Diga-se de passagem, é só por conta de "Ulisses" que estou lendo a Odisséia. A personagem é uma mulher que trai o marido:avesso condenável. O "Ulisses" de Joyce é o marido que só se aventura nas ruas de Dublin.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ontem sonhei que retirava uma barata da minha epiderme. Ando sonhando com elas. Sinto fobia. Sonhei, antes da faxina geral no meu apartamento, que me via coberta delas e tentava desesperadamente me desvencilhar. Sonhos kafkanianos, sonhos de Clarice.
Há mais de um ano tranquei 2 caixas de papelão com pertences da mudança no armário embaixo da pia da cozinha. Minhas lembranças esquecidas e lacradas sob a porta de tinta descascada. Lembranças submersas e nem por isso menos incômodas.
Valéria abriu o armário, rasgou as caixas úmidas e separou os objetos, trabalhos de alunos, cartas e fotografias à minha vista. Não tive coragem de abri-lo sozinha.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A linha da vida

Ando num ritmo alucinante de trabalho, principalmente porque a distância entre a minha casa e meus locais de trabalho é deveras extensa.

Antes assim: prefiro estar atolada de trabalho do que não ter nenhum. Além dos afezeres domésticos. Essa coisa de todo dia ser dia de varrer, dobrar, arrumar, esticar, lavar, esfregar, torcer, pendurar, picar, refogar, temperar, mexer, grelhar. Todos os verbos cabem na rotina da casa.

Mas estou tão feliz de tomar as rédeas da minha vida, que não tem vida de comodidades que compense a sensação de liberdade que é ter o meu canto. Por isso que demoro 3 horas por dia indo e voltando do trabalho sem reclamar. Se é o trabalho que me possibilita pagar pela minha alforria (irônico não?), trabalhemos.

É bem verdade que me afastei dos livros e que de vez em quando folheio algum de saudade. O último foi do Thomas Mann, no trem sentido Japeri. Que contraste ler "Morte em Veneza" naquela calor, sacolejando minha barriga de seis meses ao som do atrito do trem. Me lembrei da Ive, que dizia que o ato de varrer a cozinha no decorrer da escrita da sua dissertação sobre Benjamin, a conectava com realidade e que isso era importante.

Independente da alienação que o trabalho traz, e professores trabalham cada vez mais, faço um esforço para que não mecanize meu ofício e tire algum prazer e alguma reflexão disso. E tome mais trabalho!

Por enquanto, a inquietude não deu sinais de explodir, apesar de duvidar de vez quando da escolha que fiz para a minha vida. Será que reproduzir o padrão das gerações anteriores: trabalho, casamento, filhos foi a melhor opção? No presente momento, não me arrependo das minhas escolhas, pelo contrário. Apesar da repulsa da maioria dos meus amigos balzaquianos que negam esse modelo e estendem a adolescência até onde podem. Eu sempre quis isso, sempre quis a minha família. Talvez porque nunca tenha tido isso, ou para reparar o desleixo dos meus pais para comigo e minha irmã numa época em que o casamento era o caminho "natural" da vida.

A gente se descobre muito careta. Mentira, eu sempre me soube assim. E tenho a sensação de que nada é mais valioso do que a família que eu conquistei. Troco qualquer vida glamourosa pela minha vida de tripla jornada de trabalho.

E tenho uma paz de espírito que nunca tive. Não existe espaço para a melancolia. A consciência de me saber mais uma na multidão e de que viver é isso aí. Acordar, lavar, passar, esticar, cortar, reforgar, amassar...Fiz o caminho inverso ao da Ana de Clarice e aquele homem cego que mascava chicletes no bonde me tirou num estalo de uma floresta fantástica para a segurança do lar doce lar.

Felicidade é isso aí pra mim.